Receita de família: achar

Eu sou, para (quase) todos os efeitos, bilingue. Isto é mais produto da minha infância do que da minha multi-etnia . De qualquer forma, sinto e tentarei fazer com que português (a minha suposta língua primária) tenha maior relevo neste blog. Faz parte da minha herança cultural e acho que até chega ao ponto de ironia, eu só conseguir apreciar dita herança como emigrante e não como residente.

Isto tudo a propóstio de quê, afinal?

Tentei uma receita que me foi dada pela minha tia. Sim, ela é portuguesa e não, a receita não é lusa. Pelo menos suponho que não.

Achar, de acordo com a wikipédia, é uma “conserva típica da culinária indo-portuguesa”, embora em inglês o mesmo termo seja usado para coservas do sub-continente em geral. Dada a presença portuguesa na Índia, é provável que os exploradores tenham simplesmente adoptado a conserva e que pelo mundo lusófono se tenha associado exclusivamente às colónias portuguesas. De qualquer forma, não vejo nenhuma influência portuguesa na receita a não ser que contemos com o uso da malagueta cuja introdução na Índia, salvo erro, é atribuída aos exploradores portugueses*.

O achar (cuja pronuncia imagino sempre com um “t” antes do “ch”) de lima precisa de três, no máximo quatro, ingredientes: limas, limões, malaguetas e, não essencial (mas muito bem-vinda), uma aguardente de escolha indivídual. Como manda a tradição da culinária familiar/caseira, não me foram dadas medidas para qualquer um destes ingredientes. Tudo feito a olho, somente recebi uma descrição de “rácios” a usar.

Dito isso, usei 7 limões, 8 limas e uma mão-cheia de malaguetas pequenas.

Começa-se por tirar as pontas das limas, cortá-las aos quartos ou oitavos e meter numa taça com bastante sal (confiem) a pernoitar. Eu até deixei duas noites porque esqueci-me por completo que tinha começado com este projecto.

Depois de deixar as limas a pernoitar (ou mais), transfere-se para uma panela e cobre-se com sumo de limão (e nada mais). A isto, junta-se as malaguetas/piri-piris sem os pausinhos. Não é preciso cortar, nem tirar sementes. Melhor, nem pensem em tirar as sementes! É daí que vem o picante todo.

Mete-se a mistura toda no fogão e levanta-se fervura. Quando começar a ferver, baixa-se o lume para mínimo e espera-se. Quando as malaguetas estiverem bem cozidas (diga-se moles) tira-se a panela do lume e as limas da panela (mas reservam-se). Para isso, achei que usar pauzinhos seria o mais adequado. Não achem o mesmo.

Quando já não houver bocados de lima na panela, tritura-se as malaguetas no sumo de limão. Tanto de pode usar uma varinha-mágica, como um triturador. Se quiserem ser mais retros (que agora é todo fashion!) pode-se escorrer as malaguetas (reservem o liquido!) e moê-las num almofariz (gasta-se calorias, que também é todo fashion!**). Quando todo o picante estiver desfeito, volta à panela, junta-se-lhe as limas e mete-se em lume brando.

Se, por acaso, houve algum espírito ou aguardente em casa, junta-se um cálice à panela. Eu, por acaso, tinha cachaça em casa e, por acaso, pensei “cachaça e limas combinam bem!”. Por isso (por acaso) decidi meter cachaça na mistura. Ai! o erro que pensei ter cometido! Mal meti a cachaça, a mistura (suponho que por acaso) começou a cheirar a autêntica caipirinha. Durante dez minutos não parei de andar p’á frente e p’a trás, parando de vez em quando para farejar os vapores que se erguiam da panela para ver se ainda cheiravam  a caipirinha. Não é que não goste de caipirinha, mas o conceito de barrar as minhas costeletas de porco com colheradas de caipirinha não me pareceu muito bom.

Por sorte (ou acaso), o cheiro a caipirinha desapareceu e deixou que me viesse às narinas o calor dos picantes e o agridoce das limas. Cheirava a perfeição, a sucesso, a não-caipirinha! Depois disto foi só esperar que engrossasse um pouco para depois enfrascar, limas e tudo (as limas também se comem). O melhor de achar é que é um picante “rápido”, embora forte. Isso quer dizer que se sente o picante com muita rapidez, mas que (por acaso) passa com igual rapidez; é como uma onda de picante. Não só isso, como dá para se juntar a quase tudo. É mais fácil fazê-lo com comida asiática, como caril, ou carnes que foram marinadas com molho de soja e o demais, mas já meti achar em salada, ou num simples filet de frango grelhado e acreditem que fica bem.

Gostaria de agradecer a minha querida amiga Margarida (olhem só! Rimou!) que me fez um enorme favor ao ler este post antes de ser publicado para confirmar a falta de “emigrês”.

*Nota: Isto escrevo com memória dum livro que se pode considerar uma mini-crónica do povo Luso. Intitula-se “The First Global Village” por Martin Page. Originalmente escrito em português, agora já se encontra traduzido para português.

**Nota: Dá para notar que sou de Cascais?

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