Cavaco, Cavaco…

Verdade seja dita: atrasei-me nas notícias. A internet faz-me falta quando se fala daquilo que acontece fora do Reino Unido (e dentro!). Por causa de razões técnicas, não tive acesso à rede global da informação e, por extensão, só soube do seguinte hoje:

O casamento civil entre dois membros do mesmo sexo agora é legal em Portugal

Admito: quando soube que o processo, depois de aprovado pelo Parlamento, teria de passar pelas mãos de Cavaco Silva pensei que ele usaria o poder do veto sem sequer olhar para o documento. Nem queiram saber a minha surpresa quando soube que Cavaco Silva tinha promulgado o casamento homossexual!

O que não me impressionou foi o raciocínio dele. De acordo com O Público, o Presidente da República não vetou o diploma porque achava que tal arrastaria o processo e debate no assunto, desviando assim a atenção dos políticos da Crise (é favor notar o uso do ‘c-maiusculo’). Por outras palavras, acha que a igualidade matriominal entre casais do mesmo sexo e tais do sexo oposto é um assunto trivial, em especial quando comparado com a Crise financeira contêmporania.

Por insultuoso que isso possa ser, faz sentido. Em momentos de crise, populações inteiras podem encontrar-se repentinamente conjuntas, sendo vítimas de um mal comum. No entanto, não me parece que o Presidente está consciente do grande passo social que acaba de dar pelo país.

Só sete países no mundo inteiro usam o termo “casamento” quando se fala da união civil de dois membros do mesmo sexo, quatro dos quais estão na União Europeia (excluíndo Portugal). Portugal tornou-se um dos poucos países que, face ao diálogo homossexual, começaram a verdadeiramente divergir o Governo da Igreja. Aos poucos, portugueses estão a tornar-se cada vez menos dependentes “de Fátima, do Fado e do Futebol”.

Cavaco Silva mencionou que o Estado deveria estar a concentrar-se em unir o país, não dividí-lo. O diploma não deveria mudar muito a divisão populacional existente em Portugal: há aqueles que querem que homossexuais tenham o direito de casar e aqueles que não. Qualquer divisão no assunto é pre-existente e continuará a existir; o estado legal do casamento homossexual nãoimporta. Sinceramente, não acho que vetar o diploma daria em muita diferença.

Apesar de tudo isso, há detalhes nesta par’dia toda que demonstram que Cavaco Silva é mesmo um diplomata. O Presidente esperou até DEPOIS da visita Papal a Portugal para promulgar o diploma. Certamente, ele está consciente da explosão de opiniões que teria acontecido se os dois acontecimentos se tivessem superimposto.

Segundo, o anúncio da promulgação foi feito no Dia Internacional contra a Homofobia. Qualquer organização ou governo interessado terá, quase certamente, notado a nova legislação. A escolha de dia de Cavaco meteu o país no radar “homo-social”. Agora, claro, isto há de ter as suas consequências, como maior interesse cultural e turismo gay (grande mercado, a sério!).

E, por final, temos o facto que o Presidente promulgou o diploma contrariado.

“[Há momentos] em que a ética da responsabilidade tem de ser colocada acima das convicções pessoais de cada um”

O que é que isto quer dizer? Simplesmente que o Presidente tem noção que qualquer crença pessoal dele não deveria afectar o seu raciocínio face problemas sociais. Ele pôs de parte as suas “convicções pessoais” e, espero, viu que o casamento homossexual é um passo à frente.

Para ler sobre o assunto, basta seguir o link para o artigo no Público, aqui.

Agora… comecemos a falar de adopção.

Advertisements

2 thoughts on “Cavaco, Cavaco…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s